quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Sobre-vivência de peixe pequeno em mar voraz

Quando eu estava grávida, entrei numa lanchonete em Realengo (bairro da periferia carioca, vizinho à Vila Militar) e o atendente, querendo ser agradável:
- É menino ou menina?
- Menino.
- Aê, garotão, vai ser militar pra ajudar a família.
Fiquei pálida e só consegui soltar um histérico "dermelivre". Ele, é claro, não entendeu e, de testa franzida, começou a enumerar as vantagens de construir carreira nas forças armadas. Não tive reação diante do "pra garantir uma aposentadoria gorda" dele. Engoli meu suco de graviola e fui-me embora, tentando me escorar em alguma linha de raciocínio e, principalmente, tentando não me sentir uma péssima mãe por não me preocupar com a aposentadoria do meu feto.

Esse episódio voltou a me latejar agora durante a campanha eleitoral junto de uma frase da Anaïs Nin: 
'Não enxergamos as coisas como são, enxergamos as coisas como somos.'
E não é que é isso mesmo?
A gente é o que vê e só vê o que aprendeu a ver. Confuso? Desenrolemos:

Não é segredo pra ninguém que cada território tem seus códigos, certo? E que, antes do universo ilimitado de subjetividades individuais, há uma bobagem chamada sobrevivência que nos obriga a buscar adequação ao meio. Ou, se preferir, dançar conforme a música.

Pois ocorre, meu amigo, que o Brasil é, por formação, cheio de territórios em que se sobrevive no extremo.

Isso explica porque somos tão maniqueístas, porque nossas eleições são polarizadas e porque temos tanta dificuldade em optar por caminhos alternativos. No frigir dos ovos, é polícia ou bandido. Militar bem sucedido ou civil miserável.

Na terra do 'manda quem pode, obedece quem tem juízo', não dá pra julgar quem prefere se agarrar às formas de governo já conhecidas e discutir assuntos que enchem barriga. A maior parte do povo quer e precisa ouvir sobre economia, emprego, impostos. É o famoso "farinha pouca, meu pirão primeiro". E fazer as associações necessárias pra entender o quanto o micro está ligado ao macro é um exercício pra poucos privilegiados.

Seguindo esse fio da meada, também não é de se estranhar que eu, sendo circunstancialmente artista e universitária, e tendo me conscientizado da minha condição de mulher, pobre, negra e migrante, me derreta toda quando um candidato solta uma frase que alimenta a alma, que discute liberdades pessoais, que defende a igualdade, aquela ideologia toda. Em bom português, é plausível que eu faça parte dos que estão ali entre Psol e PV, que são o alívio dos inconformados.

Só fico me perguntando se esse não é um lugar muito bem comportado e definido que a contracultura ocupa dentro da cultura. Às vezes, acho que somos meio "café com leite" (o das bricadeiras, não o das oligarquias) no meio de tanto peixe grande, no meio de tantos esqueminhas e esquemões que sustentam nossas estruturas. Me pergunto também se não estamos perdendo tempo demais na luta pela luta, ao invés de vivermos com mais sede o mundo que queremos.

Caminhar pelas vielas, e não pelas grandes avenidas, é um desafio diário e a gente tem que se perguntar o tempo todo se está fazendo o suficiente pra criar cada vez mais vielas e pra garantir que o outro também possa construir os próprios caminhos tortos.

Tomara que, independetemente de quem vença as eleições - precisamos nos preparar pro pior - e dos absurdos que tivermos de engolir, tenhamos fôlego pra resistir e dar o braço a quem está do lado. Até que o amor seja a regra e não a exceção.

Tenho a missão de criar um filho que, ao ser perguntado se prefere matar ou morrer, responda "prefiro dançar".