quarta-feira, 29 de julho de 2015

Viagem ao (meu) interior, volta ao redor dos mundos.

Fiz 27. Passei meu aniversário indo e voltando da planície árida em que nasci. Enterro de vovó. A mãe de minha mãe que me chamava Ingra, o nome que adotei pra assinar o que escrevo. Eu, escritora de vó analfabeta. Minha véia preta e boa, encrenqueira, cumpridora.

Passei pelo hospital em que fui parida, entrei na igreja de Santo Antônio em que fui batizada, rezei diante do túmulo de família, buraco que me assegura ter onde cair morta. Do chão, não se passa, entendi com alívio. Firmei. Perdi o medo de errar, como é humano ser errante, de vagar incerta porque certeza mesmo é só o buraco, a volta pra casa e o fim do desterro.

Antes disso é esse acordo com o que afeta, com o que é flecha com ponta de fogo que me acerta, rompe, abre chaga e cicatriza ao mesmo tempo pra eu seguir aberta, exposta, atravessada, mas sem risco de me contaminar. Eu passo pelo mundo, o mundo passa por mim, eu deixo pegadas, ele me gasta os contornos até moldar um corpo que caiba de volta no corpo da Terra, pra fundir a matéria e volatilizar o espírito purificado. A Alquimia. 

E na passagem tem o respiro, o sono, a pausa e os recomeços, o eleborar, o sim, o não e o tá tudo certo, o senta aqui e toma um café. O agora como dádiva, o crescei e multiplicai-vos, o presente inventável. 

Eu, por exemplo, ganhei pra essa nova volta ao redor do Sol palavras mágicas de toda gente especial que me cerca, verdadeiros ungüentos pros pés feridos. Fé nova, a alegria de não saber, o desejo de só desejar o que não sei, o que não conheço, o que é maior e que evidentemente não pode estar sob controle. 


Ganhei uma voz soprando "Que a terra coma, mas que não coma agora". A falta de pressa de chegar de quem sabe que não há lugar pra chegar, porque já estamos. Ganhei as asas de quem sabe onde estão as raízes. A Alquimia.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Juro que sei.

Eu sei. É sério, eu sei.
Sei e quero que você saiba que eu sei.
Sei dessas coisas que você sabe e sei que quer se assegurar de que mais gente sabe também. 

Sei que as notícias vão esmagando tudo o que te é mais sagrado. Que os absurdos vão te asfixiando na fila, no trem, no trânsito, no metrô, no mercado, na consciência. Sei que tá caro, tá pouco, tá murcho, tá gasto, tá ordinário. Sei que a gente anda comendo lixo e varrendo os hábitos pra debaixo do tapete.

Sei que você anda pensando em mudar de cidade, em ir pro meio do mato pra plantar sua própria comida, em dar um tempo de tudo. Retiro espiritual, um curso fora do país, qualquer coisa tá valendo pra tentar enxergar esse labirinto de cima.

Sei. Sei mesmo, juro que sei.

Sei que a saudade tem te doído, que as pessoas que você ama estão se consumindo nas próprias bolhas, que as coisas mudaram e que tudo que era bom e durava pouco tem durado ainda menos e já nem parece tão bom assim. 

Sei que você passa boa parte do seu dia no centro de uma balança cruel e ilógica entre o que te faria feliz e o que paga as tuas contas. E que as contas te roem os calcanhares no mesmo ritmo em que você vai perdendo os cabelos. É, eu sei.

Sei que você se arrepende, sei que você nem sempre se perdoa, sei que você se tortura pensando nos caminhos que não escolheu e que tem sentido que não é mais tão jovem assim a ponto de poder fazer qualquer coisa. Pior que sei.

Sei que todo dia você falha onde não merece falhar, falta onde não merece faltar, mas que tantas vezes tudo o que você tem são a falta e a falha e, então, por pura necessidade de amar, você ama a falta e a falha. Sei que você não cabe em dias tão curtos, tão apertados, tão obrigatórios.

Sei que isso tudo parece de um pessimismo sólido e definitivo mas note que é justamente o contrário. Entenda que se percebo que as horas não têm feito sentido é porque pretendo encontrar aquilo de raro que só cabe nos minutinhos mais desimportantes e que, portanto, está em toda parte. A tal flor que brota do concreto, absolutamente majestosa, mas que só os olhos dos mais distraídos vão enxergar.

É que conheço o teu sorriso amarelo mas também conheço a tua gargalhada, a tua capacidade de cometer pequenas loucuras salvadoras, de pagar um belo almoço pro mendigo, de mandar o chefe chato ir pastar e de ser um rei excêntrico, ainda que num gesto discreto. Sei que você traz um punhal na manga e que assim que o monstro te engolir, você vai achar jeito de rasgá-lo de dentro pra fora.
Te sei concreto, mas também te sei flor.

Desculpe o texto longo e a pré-potência, mas é que tenho sabido dessas muitas coisas poucas e precisava esvaziar pra comportar novos saberes que ainda não vivi, mas que já pressinto com pequenos tremores de entusiasmo que vão vir de você. Dessas pequenas faíscas que partilhamos, da certeza de nos sabermos mutuamente e de confiar que assim também nos construímos mútua e continuamente. E que podemos mais. E melhor.

Sabe? Sabe sim, eu sei que sabe. 

Ontem foi dia do amigo, amanhã o sol nasce em Leão, eu estou com pressa de te saber mais. Sei lá, acho que é meu jeito de amar.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Sobre-vivência de peixe pequeno em mar voraz

Quando eu estava grávida, entrei numa lanchonete em Realengo (bairro da periferia carioca, vizinho à Vila Militar) e o atendente, querendo ser agradável:
- É menino ou menina?
- Menino.
- Aê, garotão, vai ser militar pra ajudar a família.
Fiquei pálida e só consegui soltar um histérico "dermelivre". Ele, é claro, não entendeu e, de testa franzida, começou a enumerar as vantagens de construir carreira nas forças armadas. Não tive reação diante do "pra garantir uma aposentadoria gorda" dele. Engoli meu suco de graviola e fui-me embora, tentando me escorar em alguma linha de raciocínio e, principalmente, tentando não me sentir uma péssima mãe por não me preocupar com a aposentadoria do meu feto.

Esse episódio voltou a me latejar agora durante a campanha eleitoral junto de uma frase da Anaïs Nin: 
'Não enxergamos as coisas como são, enxergamos as coisas como somos.'
E não é que é isso mesmo?
A gente é o que vê e só vê o que aprendeu a ver. Confuso? Desenrolemos:

Não é segredo pra ninguém que cada território tem seus códigos, certo? E que, antes do universo ilimitado de subjetividades individuais, há uma bobagem chamada sobrevivência que nos obriga a buscar adequação ao meio. Ou, se preferir, dançar conforme a música.

Pois ocorre, meu amigo, que o Brasil é, por formação, cheio de territórios em que se sobrevive no extremo.

Isso explica porque somos tão maniqueístas, porque nossas eleições são polarizadas e porque temos tanta dificuldade em optar por caminhos alternativos. No frigir dos ovos, é polícia ou bandido. Militar bem sucedido ou civil miserável.

Na terra do 'manda quem pode, obedece quem tem juízo', não dá pra julgar quem prefere se agarrar às formas de governo já conhecidas e discutir assuntos que enchem barriga. A maior parte do povo quer e precisa ouvir sobre economia, emprego, impostos. É o famoso "farinha pouca, meu pirão primeiro". E fazer as associações necessárias pra entender o quanto o micro está ligado ao macro é um exercício pra poucos privilegiados.

Seguindo esse fio da meada, também não é de se estranhar que eu, sendo circunstancialmente artista e universitária, e tendo me conscientizado da minha condição de mulher, pobre, negra e migrante, me derreta toda quando um candidato solta uma frase que alimenta a alma, que discute liberdades pessoais, que defende a igualdade, aquela ideologia toda. Em bom português, é plausível que eu faça parte dos que estão ali entre Psol e PV, que são o alívio dos inconformados.

Só fico me perguntando se esse não é um lugar muito bem comportado e definido que a contracultura ocupa dentro da cultura. Às vezes, acho que somos meio "café com leite" (o das bricadeiras, não o das oligarquias) no meio de tanto peixe grande, no meio de tantos esqueminhas e esquemões que sustentam nossas estruturas. Me pergunto também se não estamos perdendo tempo demais na luta pela luta, ao invés de vivermos com mais sede o mundo que queremos.

Caminhar pelas vielas, e não pelas grandes avenidas, é um desafio diário e a gente tem que se perguntar o tempo todo se está fazendo o suficiente pra criar cada vez mais vielas e pra garantir que o outro também possa construir os próprios caminhos tortos.

Tomara que, independetemente de quem vença as eleições - precisamos nos preparar pro pior - e dos absurdos que tivermos de engolir, tenhamos fôlego pra resistir e dar o braço a quem está do lado. Até que o amor seja a regra e não a exceção.

Tenho a missão de criar um filho que, ao ser perguntado se prefere matar ou morrer, responda "prefiro dançar".